O observador

domingo, agosto 04, 2013


Um sino tocou naquela noite e ele levantou o olhar. Alguém acabara de passar pela porta da biblioteca: uma garota intrigante, de pele branca como a neve que forrava as calçadas e cabelos longos, pretos como carvão. Ela tinha uma bolsa desgastada pendurada no ombro da qual ele pôde ver alguns livros saindo para fora e um pequeno crachá da biblioteca. Parecia como qualquer outra, mas algo se mexeu dentro dele ao olhá-la através das janelas. Algo muito mais forte do que borboletas no estômago, alguma coisa parecida com um furacão de calor e frio percorrendo todo o seu corpo.

Inquieto, ele saiu pelas ruas em direção ao seu apartamento pensando em como descobriria o nome daquela garota. Na metade do caminho Pedro encontrou um pequeno pingente debaixo do banco da praça. Pegou-o, analisou o objeto na palma da mão e por fim colocou-o no bolso. Continuou andando, agora um pouco mais apressado já que os flocos de neve voltavam a cair.

Ao chegar em casa entrou no banho para amenizar o frio, pediu pizza pelo telefone, colocou um filme de ação qualquer no DVD e se jogou no sofá. Pedro morava sozinho em Nova York, estagiava meio período num hospital do bairro e na parte da manhã fazia faculdade de medicina. Fazia não pelo dinheiro, mas porque amava, porque queria salvar vidas. Tinha os cabelos castanhos avermelhados bagunçados, os olhos intensos e negros e o maxilar definido. Era simpático e dono de um sorriso tão bonito que chegava a ser perigoso. Naquela noite ele adormeceu ali mesmo na sala e como era de se esperar sonhou com a tal bibliotecária.
Quer entender melhor essa história? Então entra aqui e leia a parte I.

O nosso quebra-cabeça

quinta-feira, julho 25, 2013

Eu tenho um tanto de textos incompletos guardados. Trechinhos, versinhos, tudo para você. Às vezes eu não consigo encontrar as palavras certas e parece que nada se encaixa. Então eu deixo aquele projeto de história guardado, quem sabe um dia as coisas se ajeitam não é? Acho que isso é um reflexo do que eu sempre fiz com a gente. Sempre guardei um pouco de esperança numa caixinha, e você se encarregava de nunca deixá-la se esvaziar. Porque eu achava que um dia o nosso quebra-cabeça ia magicamente se completar.

Alguns desses textos eu amassei e joguei fora, outros eu deletei do computador e alguns estão aqui porque gosto do comecinho, mas não consigo imaginar um final e muito menos um desenvolvimento. Entende agora quando digo que eles são uma metáfora do nosso sentimento? Teve aquele começo bom, cheio de borboletas no estômago e quase foi para frente. Você quase sentiu o que eu sentia, não é? Ah vai, confessa que você chegou perto!

Aí a criatividade foi embora. Deu crise, a gente se perdeu, as borboletas voaram, as palavras sumiram. O calor que eu sentia ao te ver virou aquele frio cortante. Eu ainda tentei escrever mais algumas linhas. Tentei colocar um adverbo aqui, um sujeito composto ali. Mas não adiantou. É que não temos meio, nem conclusão. Não temos nada, nem um mero título.

Foi numa dessas tentativas que eu percebi que o nosso quebra-cabeça sempre deu errado porque você não era a peça certa para mim. Então eu peguei as nossas linhas de introdução e joguei fora. Isso aí cara, joguei tudo no lixo, cada palavra grudada no papel. Deu uma dorzinha no coração, aquela que todo escritor sente ao ver uma história se frustrando, mas passou. Afinal, há sempre novas histórias e uma delas algum dia se completa sem forçar a barra, sem todo aquele stress. Assim, naturalmente.
Feliz dia do escritor pra todos que escrevem, seja em caderninhos, blog ou livros ne? hehehe Olha só, consegui escrever algo depois de meses. uhul /feliz

Um salto do precipício

terça-feira, abril 30, 2013

"- Não solta da minha mão - eu disse para ele. Ele deu um sorriso debochado e respondeu:
- Larga de ser medrosa! É só uma roda gigante e estamos parados. Abre os olhos vai, vê como é linda a cidade daqui de cima.
- Não quero. Eu vou cair.
Apertei mais ainda sua mão, enquanto ele ria do meu pânico de altura. Minha curiosidade venceu o medo e eu abri um dos olhos. Realmente, a cidade era mais bonita dali. Abri o outro olho e vi lá em baixo um festival de luzes, pessoas do tamanho de formigas andando tranquilas pela beira da praia. O banco onde estávamos deu uma leve balançada e eu fechei os olhos rapidamente. Ele colocou os braços ao redor da minha cintura e sussurou:
- Eu estou aqui. Pode abrir, eu te seguro."
Abri novamente os olhos. Era incrível a confiança que aquela voz me passava. Ele poderia dizer "Pula daqui que eu prometo te segurar" e eu faria sem medo algum. Eu era uma idiota por me sentir assim. Por amá-lo mais do que o necessário. Por sentir todos aqueles arrepios quando estávamos juntos.

Maior do que o medo de altura, era meu medo de me apaixonar. Relacionamentos sempre me apavoraram. Durante toda a vida, a um mero sinal de maior proximidade, intimidade ou algo mais forte do que um simples "gostar", eu logo fugia. Sentir nojo de alguém só porque eu começara a conhecê-la mais profundamente era extremamente comum até que ele apareceu e me bagunçou. Ele tumultuou tudo dentro de mim, confundiu minha cabeça, os meus medos, os meus sentimentos, os meus sonhos, a minha vida.

Não tenho certeza se isso foi bom. Eu saltei de ponta-cabeça e bem, eu não sei se ele vai estar lá para me segurar. Nada é certo na vida, nem mesmo ela própria, mas foi um risco que eu escolhi correr. Por ele, por mim, por todas as borboletas no meu estômago, por tudo que podemos ser. E seremos, eu espero.
Bem, textinho meloso inspirado na frase "Não solta da minha mão." da música De Onde vem a Calma, do Los Hermanos e "Você me bagunça e tumultua tudo em mim..." da música Você me Bagunça, do Teatro Mágico. Recomendo as duas bandas ♥. É isso! /feliz

O rouxinol

segunda-feira, abril 22, 2013


O rouxinol tem mania de cantar na calada da noite. Eu tinha duas provas no dia seguinte e o tal bichinho não parava de soltar notinhas entusiasmadas para a escuridão. Como não pude calá-lo, resolvi ouvi-lo. Cantava, assim como eu escrevia, para espantar a solidão, eu acho. A nossa única diferença é que sua melodia, diferente das minhas linhas, era alegre.

Cheguei a pensar que ele estivesse fingindo ou gostasse de ser sozinho. Mas depois de um pouquinho de reflexão me lembrei que ele só cantava para atrair "uma rouxinol". Bem, talvez ele estivesse triste. Talvez ele sofresse por não ter encontrado sua metade da laranja. Mas me diz, como atrair alguém choramingando pela madrugada? Como atrair amor, escrevendo solidão, ódio ou decepção? Como atrair felicidade cantando tristeza? O rouxinol estava certo.

Peguei meu bloquinho de notas na primeira gaveta e escrevi um pequeno aviso: "Seja como o Rouxinol. Escreva, cante, desenhe felicidade. Há muito além de amores mal resolvidos." Dei uma última olhada para o pequeno pássaro do outro lado da janela e ele pareceu notar a minha presença. Continuou a cantar, dessa vez um pouco mais baixo, me ajudando a pegar no sono novamente.
Juro que tentei escrever uma coisinha melhor (e colocar uma foto minha que fosse decente), mas não deu! /triste A imagem é daqui e a frase significa: "Não é sobre forçar a felicidade; é sobre não deixar a tristeza vencer." /alegre

A tal idealização

domingo, abril 14, 2013


Era noite. As estrelas dançavam no céu negro iluminando a praia logo abaixo. A brisa fria e salgada serpenteava entre os meus cabelos, enquanto as ondas do mar molhavam as pontinhas dos meus dedos do pé. Minha velha amiga sentava-se na areia ao meu lado, apertando lentamente meu coração. Eu quase conseguia senti-lo sendo esmagado por suas mãos delicadas.

Um bom tempo havia se passado desde que eu estava ali, era hora de ir para casa. Me levantei melancólica, tirei a areia das roupas e ao me virar jurei tê-lo visto. A alguns metros de distância, num lugar mal iluminado, eu pude distinguir: o cabelo preto, os braços que transmitiam segurança e paz e o sorriso. Ah, aquele sorriso! As covinhas à mostra, os olhos apertadinhos que prendiam os meus. Tive vontade de correr ao seu encontro, mas minhas pernas tomaram a direção contrária. Era a decisão certa e dolorida a se tomar. Até que eu acordei.

Era madrugada e não tinha uma estrela sequer no céu. Não tinha brisa. Não tinha mar, nem a calmaria das ondas para cessar meu pranto. Não tinha mais nenhum vislumbre dele. Nem mesmo uma sombra com o formato do seu corpo. Ou alguma voz rouca que se assemelhasse à dele. Tudo o que tinha era solidão. Escuridão e a velha saudade.
E esse é o primeiro post de 2013, diretamente de Viçosa. Me mudei pra cá faz 20 dias, as coisas ainda vão se ajeitar, eu espero. Agora, voltemos a estudar. "Just know, wherever you go, you can always come back home."

O meu natal

segunda-feira, dezembro 24, 2012

Minha mãe me acordou com uma sacudida de leve. Levantei num pulo, agitada e ansiosa. Era manhã de Natal, algumas horas depois da ceia. Hora de ganhar os tão esperados presentes. Eu sempre fui encantada com o Natal. É claro que os presentes tinham grande influência no meu amor por essa época, mas era o fato de estarmos todos juntos que me deixava feliz. E ainda deixa.

Sonolenta, calcei os chinelos e fomos até a sala. Ali se encontrava meus presentes. Vários deles. Meus olhos brilhavam de excitação, querendo abri-los e ver o que estava dentro. Era uma época boa, porque eu nunca sabia o que ia ganhar. Eu não ia com a minha mãe fazer as compras, escolher o que eu queria do jeito que fazemos hoje (um jeito totalmente sem graça, por sinal). Tudo era uma grande surpresa!

Me aproximei dos pacotes e comecei a rasgar as embalagens, do menor para o maior. Bonecas, jogos, algumas roupas e mais bonecas. Eu gostava de bonecas, de preferência daquelas bem pequenininhas e delicadas. Quase tudo o que eu pedi estava ali, naquela sala, pronto para fazer parte da minha infância.

Me lembro desse tempo com um sorriso no rosto. As coisas mudaram, hoje em dia eu recebo meus presentes antes mesmo do dia 25. Mas ainda amo o Natal. Ainda amo como toda madrugada do dia 24 estamos ali, juntinhos, primos, tios, avós, mães e pais. Comendo, brigando, rindo, relembrando. Nada é perfeito, eu sei. Mas é tão feliz! Não é isso o que importa?

Infindáveis

segunda-feira, dezembro 03, 2012

Livros são intermináveis, sem final definido. Já reparou nisso? Podemos ler até a última página, mas sempre haverá mais. O autor sempre deixa brechas para uma nova história, um novo capítulo. Talvez você tenha lido até o último livro de uma coleção, saga ou trilogia, porém nunca acaba ali. A história tem continuação na mente de cada leitor, de maneiras diferentes e peculiares, e no coração de quem escreve.

Reparei isso ao chegar ao fim de um dos meus livros favoritos. É claro que as coisas se ajeitaram, deram certo, tudo terminou incrivelmente perfeito... Mas faltavam partes a serem esclarecidas, dúvidas pairaram no ar e ainda havia muita história pela frente. Histórias que serão esclarecidas pela autora algum dia ou que eu terei de resolvê-las. E isso acontece com todos os livros! Alguns de maneira mais sutil e outros de um modo explícito.

Um grande exemplo dessa "teoria" é Dom Casmurro. Machado de Assis nos dá a oportunidade de interferir e finalizar sua obra. Ele nos dá pistas de que Capitu traiu Bentinho com Escobar ao mesmo tempo que nos mostra como isso pode ser improvável. A história de Capitu não termina no ponto final, ela perdura por décadas, até os dias de hoje.

Sempre há mais por trás de cada livro, cada história. As pessoas interpretam do seu jeito, cada um forma o seu final. Acho que essa é a finalidade dos livros, no fim das contas, aguçar nossa imaginação e nos fazer um pouco leitor e um pouco escritor.
Não sei se consegui expressar bem o meu ponto de vista, no chuveiro me pareceu bem mais claro e fácil de entender, mas é claro que esqueci boa parte do que pensei! HAHAHA /alegre Até qualquer dia, tchau! /amor