Partida

terça-feira, março 25, 2014


Coloquei o pé direito para dentro do trem. Apertei os dedos em torno da alça da bolsa e olhei ao redor. Inspirei uma boa quantidade de ar para dentro dos pulmões e coloquei-me para dentro do vagão de vez. Sentei numa poltrona perto da janela e fitei a cidade quieta, com a mão presa no vidro. Minha garganta se fechava em nós, impedindo a passagem do ar e os olhos ardiam, lacrimosos. Droga! Não chore.

É engraçado como os lugares são vazios, cinzas e sem graça a um primeiro olhar. Logo que cheguei na cidade, há um ano atrás, mal conseguia suportar a idéia de ter que morar ali. As pessoas eram esquisitas, apressadas, largadas. Diferentes, essa é a palavra correta. E o tempo fez seu trabalho: me apresentou algumas delas, fez com que me marcassem com seu carinho, amor e toda a peculiaridade que cada um tinha dentro de si.

Pessoas de todo canto do mundo. De pertinho, de longe, chamando as coisas de "trem", completando cada final de frase com o típico "uai" ou falando um baiano arrastado, sutil, lindo. Pessoas que me olhavam torto e que eu olhava de soslaio, dizendo para mim mesma que aquele tipinho deveria ser arrogante. Besteira! Todos esses aí o destino fez questão de jogar no meu caminho das formas mais inusitadas e inesperadas, esfregando na minha cara que todo mundo tinha uma qualidadezinha que valia a pena, por mínima que fosse. E muitas vezes até duas, três, quatro, um milhão!

Eu me encantei por todo mundo que passou por mim nessa cidade. Mesmo que fossem seres cheios de defeitos e escolhas erradas - assim como eu - eles se alojaram num lugar tão profundo no meu coração que ouso dizer ser impossível removê-los de lá. Qualquer um que me exibisse um sorriso sincero ou me abraçasse apertado, o coração tratava de guardar o rosto e anotar nome, endereço, CPF e RG. Tudo isso para mais tarde ficar pesado como uma mala de vinte quilos e atrapalhar meu embarque no trem de volta pra casa.

Mas é necessário partir. Mesmo que a bagagem seja enorme e seja do melhor tipo possível: de pessoas, de momentos, de festas inesquecíveis e de histórias para contar para os netos. Olha, eu prometo não deixar a mala se esvaziar... E volto, juro que volto para enchê-la ainda mais!

Tô indo embora e não me aguentei. Odeio despedidas com todas as forças e tinha que expressar de alguma forma a falta que todos os amigos que fiz aqui vão me fazer. É absurdo o tanto que amo cada um deles e o tanto que eles me ensinaram durante esse tempo. Foram pais e mães pra mim. Foram amigos, irmãos. Puxaram minha orelha, me obrigaram a estudar. Estiveram comigo nos, sem dúvida nenhuma, melhores dias da minha vida. Nas minhas melhores histórias - aquelas que são tão intensas que mal podemos descrever direito - eles estavam lá. E espero que apesar da distância estejam nas que virão. Eu amo vocês.

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