E a vida é injusta
Revirei a minha pasta de fotos do ano passado. Todos os sorrisos, todas as pessoas. Meus dedos passaram pelo monitor do computador quase que involuntariamente. Eu tinha medo de que quando começasse a chorar, não conseguiria parar. Eu estava certa. Eram duas horas da manhã e eu não fui dormir. Sentei na varanda, coloquei as minhas músicas favoritas e drenei toda a água do meu corpo relembrando um monte de coisa boa que nunca vou ter de volta.
Por muitos meses não derramei uma lágrima. Acho que eu estava totalmente vazia por dentro, paralisada numa tristeza tão profunda que me impedia de sentir qualquer coisa que não fosse um gigante nada. Eu sou muito boa em enganar as pessoas e incrivelmente habilidosa na arte de me enganar. Estava tudo supostamente bem. Eu tinha um plano, as coisas iam se ajeitar. Até aquela noite. Até eu perceber que não, nada ia ficar bem. A vida é injusta com quem faz as decisões erradas.
Não tem volta. Não tem conserto. Não funciona assim. Você não tem o direito de voltar atrás pelo caminho só porque percebeu ali no meio que ele era completamente errado. Você é obrigado a continuar. Engolir o choro, as consequências, engolir aquilo que te machuca e torcer para encontrar uma bifurcação, qualquer coisa que te dê a chance de sair desse labirinto.
Partida

Coloquei o pé direito para dentro do trem. Apertei os dedos em torno da alça da bolsa e olhei ao redor. Inspirei uma boa quantidade de ar para dentro dos pulmões e coloquei-me para dentro do vagão de vez. Sentei numa poltrona perto da janela e fitei a cidade quieta, com a mão presa no vidro. Minha garganta se fechava em nós, impedindo a passagem do ar e os olhos ardiam, lacrimosos. Droga! Não chore.
É engraçado como os lugares são vazios, cinzas e sem graça a um primeiro olhar. Logo que cheguei na cidade, há um ano atrás, mal conseguia suportar a idéia de ter que morar ali. As pessoas eram esquisitas, apressadas, largadas. Diferentes, essa é a palavra correta. E o tempo fez seu trabalho: me apresentou algumas delas, fez com que me marcassem com seu carinho, amor e toda a peculiaridade que cada um tinha dentro de si.
Pessoas de todo canto do mundo. De pertinho, de longe, chamando as coisas de "trem", completando cada final de frase com o típico "uai" ou falando um baiano arrastado, sutil, lindo. Pessoas que me olhavam torto e que eu olhava de soslaio, dizendo para mim mesma que aquele tipinho deveria ser arrogante. Besteira! Todos esses aí o destino fez questão de jogar no meu caminho das formas mais inusitadas e inesperadas, esfregando na minha cara que todo mundo tinha uma qualidadezinha que valia a pena, por mínima que fosse. E muitas vezes até duas, três, quatro, um milhão!
Eu me encantei por todo mundo que passou por mim nessa cidade. Mesmo que fossem seres cheios de defeitos e escolhas erradas - assim como eu - eles se alojaram num lugar tão profundo no meu coração que ouso dizer ser impossível removê-los de lá. Qualquer um que me exibisse um sorriso sincero ou me abraçasse apertado, o coração tratava de guardar o rosto e anotar nome, endereço, CPF e RG. Tudo isso para mais tarde ficar pesado como uma mala de vinte quilos e atrapalhar meu embarque no trem de volta pra casa.
Mas é necessário partir. Mesmo que a bagagem seja enorme e seja do melhor tipo possível: de pessoas, de momentos, de festas inesquecíveis e de histórias para contar para os netos. Olha, eu prometo não deixar a mala se esvaziar... E volto, juro que volto para enchê-la ainda mais!
Tô indo embora e não me aguentei. Odeio despedidas com todas as forças e tinha que expressar de alguma forma a falta que todos os amigos que fiz aqui vão me fazer. É absurdo o tanto que amo cada um deles e o tanto que eles me ensinaram durante esse tempo. Foram pais e mães pra mim. Foram amigos, irmãos. Puxaram minha orelha, me obrigaram a estudar. Estiveram comigo nos, sem dúvida nenhuma, melhores dias da minha vida. Nas minhas melhores histórias - aquelas que são tão intensas que mal podemos descrever direito - eles estavam lá. E espero que apesar da distância estejam nas que virão. Eu amo vocês.

