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Morada

quinta-feira, dezembro 05, 2013


Me desculpa. É, eu tô te implorando por perdão. Eu fiz de novo. Eu me deixei levar. Eu me entreguei de novo. Do mesmo jeito estúpido de sempre. Eu não consigo, não tenho forças. Sou uma covarde, não sei brincar de desapegada, desligada do mundo. Eu não sou como essas pessoas que se amam por uns segundos e depois tchau. Peraí, tchau? Mas mal deu tempo de dizer oi!

E não me venha com essa história de carência. Eu sou verdadeiramente feliz e completa com quem está do meu lado. O problema é que eu não gosto de deixar ninguém partir. Ei, cara, por que cê já tá indo embora? Olha a casa de novo. Você reparou o cafézinho em cima da mesa? Qual é o problema? O que tem de errado com a sala? Por que ninguém se senta no sofá e fica? Não precisa ser pela eternidade, sabe? Pode ser até a novela das 9 acabar.

Ou quem sabe por uns meses? Quando o café ficar frio, amargo e sem graça, aí você vai, tudo bem? Faz esse trato comigo. Faz alguma coisa. Me dá alguma resposta. Me diz porque você tá indo embora agora. Me conta o que tem de errado comigo, com essa droga de casa. Você foi no quarto, é isso? Viu a bagunça que eu faço, viu todos os meus sentimentos espalhados e misturados. Foi isso não foi? Ah, droga!

Ou você descobriu outro lugar pra ficar? Pode dizer, eu aguento. A vizinhança toda já sabe que eu não sou o melhor lugar pra se hospedar. Só me diz o que foi. O que tá passando na sua cabeça, na sua vida. Me deixa te conhecer. Sem pretensões, eu juro. Eu preciso disso pra acalmar a minha mente.

Pular de cabeça nesse precipício nunca foi uma opção. Eu tenho fobia de altura. Eu não vou pular. Eu não vou me arrebentar por inteiro quando chegar no fim. Então, olha só, eu acho melhor fechar as portas desse lugar antes que as coisas piorem. E eu preciso que você saia. De vez.

De coração cheio

quinta-feira, outubro 24, 2013

- Eu não preciso de ninguém! - vociferou ela.
Ele segurou seu braço, mas ela se soltou num movimento brusco e saiu andando rápido na frente. "Não tem espaço para mais nada", ela repetia enquanto ia para casa sem olhar para trás. Ele ficara no mesmo lugar, parado, ainda em choque. Garota esquisita. Ela deixou algumas lágrimas escaparem no caminho. De raiva, não de tristeza. Raiva porque sempre parecia frágil, carente, com cara de cãozinho abandonado. "Eu sei me cuidar! Não preciso e não quero que cuidem de mim. Porque uma hora o cuidado acaba e ele vai embora. Então eu fico aqui, limpando toda a bagunça sozinha. E repetindo esse ciclo estúpido. De novo não!", as frases surgiam em gritos sem parar em sua mente.

Todo mundo tem as suas feridas. As dela estavam abertas, escancaradas e ela sabia que não aguentaria mais nenhum golpe. As coisas estavam dando certo, sabe? Ela estava satisfeita com o que tinha. Faltava um amor, daqueles de bambear as pernas, mas quem se importa? Ela sempre fez péssimas escolhas. Seus amores machucavam, até demais. E lá estava ela, correndo em direção à mais um erro. Mais um acidente.

Ele chegou e as coisas permaneceram no lugar por algum tempo, até ele bagunçar tudo. "Foge!", sua mente gritava constantemente depois que ele jogou todas as suas certeza pelo ar. Ela deu um passo à frente. Depois outro, e outro, e outro, até estar próxima demais. Outra escolha errada. Seus pés não obedeciam aos comandos do cérebro. Até que algo estalou dentro de si. Uma dor excruciante começou a arder em seu peito. Uma lembrança de todos os amores falidos pelos quais tinha passado. Uma lembrança de que se não se virasse agora e se afastasse, ia perder o controle. Então ela cambaleou dois passos para trás.

Acredite ou não, dois passos é bastante coisa! Assim que os deu, conseguiu voltar a respirar. As pernas ficaram firmes, o estômago parou de revirar, a garganta não estava mais seca e ela agora podia pensar com clareza. Idiota! Como foi imprudente se aproximar daquele jeito. E se não tivesse volta? Ela suspirou. Agora o limite estava estabelecido e ela não ousaria ultrapassá-lo. Bem, ao menos não por um bom tempo.